Quando o cuidado vira abuso.

terça-feira, 18 de março de 2014

Para vocês, qual é o limite entre abuso e cuidado?  Vou contar para vocês algo que aconteceu comigo, quando eu tinha 18, quase 19 anos. 

Resolvi ir para uma festa com uma prima, que apesar de todo resfriado, me acompanhou para que eu não ficasse sozinha. Chegando na festa, encontrei uma ex-amiga de escola e como a minha prima estava muito mal, deixei que ela fosse embora e fiquei com essa amiga, que estava com um grupo de amigos.
Entre esses amigos, estava o João, que imediatamente chamou a minha atenção. A troca de olhares era nítida e não demorou para que as pessoas colocassem a aquela velha pressão para ficar com ele. Fiquei.
Ficamos, bebemos, conversamos, bebemos, comemos, bebemos. A festa acabou e eu, que a essa altura já estava bêbada, resolvi acompanhá-los até a casa de um outro amigo (deles) para fechar a noite. Se eu fosse um pouco mais responsável e o teor alcoólico fosse menor, certamente teria pedido para me deixarem em casa, mas, como era a senhorita irresponsável e queria aproveitar a noite até o fim, resolvi acompanhá-los.
Chegando na casa desse amigo, não tinha cerveja, só vinho. Bebi e em poucos minutos percebi que a mistura cerveja/vinho não me fez bem. Comecei a passar mal e já nem sabia mais onde estava e com quem estava. Eu não lembro de tudo que aconteceu, mas o pouco que lembro, só consegui lembrar depois da ressaca passada e com muito esforço. Durante um tempo isso foi um assunto enterrado para mim, porque eu realmente não sabia (e ainda não sei) o que de fato aconteceu, mas hoje, com outra mentalidade e analisando as coisas com um pouco mais de maturidade, eu consigo entender o que aconteceu comigo naquele dia. 

Lembro do João ter perguntado para o dono da casa se tinha uma cama para eu deitar um pouco e lembro dele me levando para o quarto. Lembro da minha amiga ter oferecido ajuda, mas ele recusou. Depois disso, lembro que estava de calcinha e ele de cueca, e eu falando que não, que não queria e ele dizendo para eu relaxar, que eu ia gostar. Lembro de ter passado por um corredor e a Neila, a minha amiga, ter flagrado nós dois quase sem roupa e ter dado um ataque, gritando que era um absurdo ele querer fazer sexo comigo naquele estado. Depois eu lembro da Neila e do dono casa (que era gay) me dando banho e de me colocarem numa cama. A partir dai, só lembro que fui acordada com uma gritaria, uma briga generalizada. Ao que me consta, eu estava dormindo, vestida apenas com um camisão do dono da casa, porque havia vomitado nas minhas roupas, e o João estava deitado ao meu lado, nu e me acariciando. Foi quando a minha amiga entrou no quarto para saber se eu estava bem e viu aquila cena.
Se o João fez sexo comigo, eu realmente não sei dizer. Juro por tudo que é mais sagrado, pela alma dos meus pais que eu realmente não lembro. Só lembro da Neila gritando que ele era um canalha, que tinha se aproveitado, feito sexo com uma pessoa bêbada e que uns diziam que ele não fez nada e que se tivesse feito, havia feito com a "mina dele". E ela só gritava: "mas ela está bêbada, nem sabe o que está acontecendo". E a maioria gritava: "bebeu porque quis. Ninguém obrigou a beber. Veio com a gente porque quis. Deitou com ele porque quis. "  A discussão continuou e eu lembro da Neila pedir ajuda de um dos meninos para me levar para casa. 

No dia seguinte, continuo sem lembrar o que aconteceu exatamente, além da ressaca e da dor de cabeça, eu também estava com ressaca moral. Eu não sabia o que havia acontecido ao certo.
Procurei a Neila que narrou a versão dela dos fatos e disse que ficou muito decepcionada com o até então, amigo João. Um outro amigo dela, que também estava presente no dia anterior, ficou puto com ela e disse que qualquer coisa que tivesse acontecido, não era culpa do João, mas minha, porque eu, por vontade própria, resolvi me juntar a eles. Eu por vontade própria, resolvi beber e acompanhá-los para a casa de alguém desconhecido e beber mais ainda e, além de tudo isso, mesmo bêbada, sem condições de nada, concordei em ir para o quarto com o João.  Ao ouvir aquilo, eu resolvi engolir o choro e ir embora. Durante muito tempo eu carreguei a culpa comigo e agradeci por nada "mais grave" ter acontecido. Sempre me senti culpada por aquilo e me martirizei por isso. Afinal, eu bebi porque quis. Eu fui com eles para a casa de um desconhecido porque quis. Eu fui para o quarto com o João porque quis. Mas uma coisa eu sempre tive certeza: eu não fui para o quarto com ele para fazer sexo. Isso nunca passou pela minha cabeça. Fui porque estava mal, precisando deitar e de cuidados e por achar que ele, por ser o cara que estava ficando comigo, cuidaria de mim. Eu não sei se ele tentou fazer sexo comigo ou qual foi a proposta, mas lembro de em algum momento ter dito não, que não queria e ele dizer para eu relaxar, que eu ia gostar. Posteriormente, ele disse que esse diálogo aconteceu quando ele me chamou para tomar banho, mas não importa. Se eu disse não,é não e acabou. E se ele queria mesmo que eu tomasse um banho, por que não chamou a Neila, que era a única que não estava bêbada e além de ser mulher era também minha amiga? Por que após todo escândalo que ela fez ao nos flagrar quase sem roupa, ele veio deitar ao meu lado nu e ficou me acariciando, quando eu claramente estava em sono profundo? 
Quando comecei a questionar as atitudes dele, eu comecei a dissolver um pouco daquela culpa monstruosa que existia em mim. O fato de ter bebido voluntariamente, não significa livre acesso para ele fazer sexo comigo. O fato de ter ficado com ele uma festa também não significa sim, vamos transar. O fato de ter ficado bêbada e deitado com ele uma cama não significa o passe livre para o sexo. Pelo contrário. Eu estava vulnerável, incapaz e a única coisa que eu precisava era da proteção, até mesmo daquele "estranho", que até então mostrava interesse e preocupação por mim. 

Alguns anos depois, eu realmente não sei se rolou sexo entre nós naquele dia. Consumida por culpa e vergonha, eu me afastei daquelas pessoas que eu não conhecia e até da minha amiga Neila e deixei o assunto morrer dentro de mim. Encontrei com o João casualmente duas vezes depois desse episódio, mas fingimos que não nos conhecíamos. 
Isso ficou guardado em mim por um bom tempo, mas depois do Sábado, em que supostamente rolou um caso de abuso no BBB em proporções parecidas, eu resolvi dividir isso com vocês e trazer à tona essa questão: quando a proteção vira abuso. Porque me parece que a linha que separa um e outro nessas situações é muito tênue e é preciso muito cuidado para não cruzá-la.
Você pode ir para um Motel com o cara, tirar a roupa e na hora H falar não. Não importa se você deu esperanças, se você deu brecha. Importa o que você quer. Fazer algo contra a sua vontade ou aproveitar de uma situação em que você não pode oferecer resistência, é abuso, sim. Não se sinta culpada, como eu me senti por muito tempo. Respeitar os limites e o corpo do outro é uma questão que precisa ser colocada em discussão e em prática o quanto antes. As pessoas precisam entender que quando uma pessoa, seja homem ou mulher, diz não para sexo ou até mesmo um beijo, um selinho, é não e ponto final. Insistir ou até mesmo se aproveitar quando a pessoa não está em sã consciência, é abusar. É o violar o corpo alheio. É desrespeitar os limites. Desrespeitar a pessoa. 
Carinho, sim. Abuso, não. 


  






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