Eu sou a garota que deu errado

domingo, 29 de novembro de 2015



Quando eu era criança, costumava passar as férias, feriados e dias santos na casa da minha vó, em uma cidadezinha do interior. Dentre as muitas coisas que eu amava das férias, ficar com meus dois amigos inseparáveis ocupava o topo da lista. Todos os dias, no final da tarde, sentávamos no final da rua, aos pés de uma amendoeira, e pensávamos na vida. Um dos papos recorrentes era o que seríamos quando fossemos adultos. Eu, claro, sempre estava nos grandes planos, afinal, era da cidade grande, estudava em boas escolas e era branca. Sim, amigos, racismo existe desde que o mundo é mundo e atinge principalmente crianças. A Evelin e o Marcos eram pessoas carentes, de uma cidade distante, dominada pela pobreza e negros. O Marcos também era gay. Não assumido, claro. Éramos crianças, mas sabíamos como o preconceito era cruel.
Em um desses papos, a Evelin comentou que a vida dela provavelmente seria casando com algum pescador, morando no quintal da mãe, sendo empregada doméstica ou com muita sorte, trabalhando no único mercado da cidade. Já o Marcos, almejava algo maior: um emprego na Prefeitura. E eu? Bom, eu, segundo eles, seria uma Médica, Advogada ou alguém bem sucedida. "É assim que a vida é", diziam eles.
O tempo passou, a minha vó morreu e as viagens ficaram cada vez mais espaçadas. Com o passar do tempo, e o interessa por outras coisas, surgiu um afastamento natural entre nós três. 
A última notícia que tive dos dois, foi quando a Evelin decidiu tentar a vida em São Paulo. Foi na cara e na coragem, sem conhecer ninguém e sem a menor noção do que faria para se manter. O Marcos havia terminado o ensino médio e conseguiu uma bolsa estudantil para um cursinho pré vestibular em Salvador. Já em Salvador, ele conheceu um rapaz de Minas, que o convidou para acompanhá-lo ele prontamente aceitou. Óbvio que achei uma loucura e tentei demovê-lo da ideia, mas sem sucesso.
Pois bem, perdemos contato e a única coisa que nos unia eram as lembranças maravilhosas da infância. 
Então que uma prima da minha mãe, que ainda morava no interior, faleceu e eu querendo garantir um banquinho no paraíso, fui ao enterro.
Lá eu fiquei sabendo que a Evelin continua em São Paulo, casada e com duas filhas e dona de um Centro de estética muito bem conceituado. Enfim, venceu.
O Marcos continua em Minas, casado com o mesmo cara que conheceu aqui em Salvador. Se formou em Direito e recentemente foi aprovado em um concurso para a PF. 
E eu? Eu continuo aqui, sem ter feito nada de produtivo da minha vida, sem ter terminado uma faculdade, sem um emprego que realmente valha a pena e fazendo textos para reclamar sobre o corte de 120 reais.
Eu realmente não sei dizer qual foi o momento em que deixei as oportunidades irem embora e nem sei se posso me considerar um fracasso total, mas é certo que a "favorita" aqui deu errado. Muito errado. E se por um lado eu fico triste por saber que não fiz nada de produtivo na minha vida, por outro eu fico muito feliz em saber que os meus amigos, que não tinham perspectivas, esperanças ou sonhos, venceram. E venceram bem. 






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